A festa da menina morta #sóquenão

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Você já devem estar familiarizados com o fenômeno conhecido como oversharing. Too much information, dizem os americanos quando se referem a algo que para eles é demasiado, não querem saber, tipo, não me conte todos os detalhes (que podem variar desde como foram as suas férias no Sudeste Asiático até o sofrimento que você passou nas vinte e seis horas do parto normal da sua filha).

Recentemente escrevi um artigo (“Não existem notas demais”) que foi publicado no livro Cibercultura em Tempos de Diversidade – Estética, Entretenimento e Política, editado por Erick Felinto, justamente sobre isso, porque tenho dificuldades em aceitar o oversharing. Ou, melhor dizendo, tinha. Porque na verdade o que eu não aceito ainda é o chamado excesso de informação. Ainda vou falar muito sobre isso aqui, porque esse tal dilúvio informacional, sob uma forma ou outra, sempre existiu, evidente que guardadas as devidas proporções, dentro de determinados grupos sociais ou castas ao longo da humanidade, mas basta mencionarmos aqui a Biblioteca de Alexandria para lembrarmos rapidamente que a preocupação com o armazenamento e a recuperação da informação não são coisa nova.

Mas o oversharing é outra coisa. Hoje tive conhecimento de algo que parece (digo parece, porque não tenho números que banquem essa hipótese) estar virando uma das novas ondas do Instagram: fotos de filhos mortos. Nada que chegue ao nível de morbidez que os jornais e a TV publicam praticamente todos os dias: a maioria são fotos que, se a pessoa não avisasse do que se trata, provavelmente pensaríamos que a criança está dormindo. Só que em várias delas há o caixão, e aí a ilusão do sono temporário se acaba.

Patologia? Vontade de querer aparecer? Não sejamos tão apressados: a morte é sempre um assunto delicado. Uma das mães postou a seguinte frase abaixo da foto da filha morta (cito de memória, não me sinto bem o bastante neste momento para retornar às fotos): “estou em luto pela minha filha, e achei que vocês iriam querer compartilhar esse sentimento comigo”. Não sou psicanalista, mas não me parece nada fora do normal para quem está de luto e quer que amigos (e aí não importa se do mundo offline ou online) estejam ao seu lado nessa hora de dor e sofrimento.

Mas isso nos mostra que a Internet é um território da dor e da delícia, como dizia aquela velha canção. É fundamental que a Web seja protegida de toda e qualquer censura. Censurar o oversharing também é impensável – afinal, quem define o que é over? As linhas entre o dito normal e o fora da normalidade são fluidas e mudam o tempo todo. E a dificuldade de aceitar essa mudança faz ela própria parte da mudança. Mas é importante assumir essa dificuldade, e eu a assumo – porque a morte é um território duro de caminhar, e do lado de cá a privacidade dos corpos não existe mais. (Fábio Fernandes)

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A vida no tempo das novas mídias

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Em pleno século XXI, as telas permeiam o dia a dia de muita gente. Difícil encontrar, nas grandes metrópoles, quem nunca tenha ouvido falar de computadores, ou tablets ou outros objetos tecnológicos. As novas realidades experimentadas diariamente são abordadas em um misto de ficção e análise no livro de Pollyana Ferrari e Fábio Fernandes.

A editora Estação das Letras e Cores lança o livro No tempo das telas: reconfigurando a comunicação no próximo dia 26 de março na livraria Cultura do Shopping Bourbon. Nele, os escritores envolvem o leitor numa viagem pela constelação de relacionamentos, sentimentos, informações e desejos que circulam em fluxos nas telas presentes na vida de oito personagens.

“Propomos mapear nossa relação diária com as telas, sejam de celulares, laptops, tablets e outros dispositivos.”

O livro é um thriller científico, com personagens ficcionais que vivenciam experiências reais do nosso dia a dia conectado onde suas interrelações mediadas por telas acabam se tornando uma espécie de rizoma deleuziano, mas sem o peso didático. São cenas baseadas em fatos reais ou mesmo ficcionais, em coisas que aconteceram com nós mesmos ou amigos, amigos de amigos, pedaços de diálogos entreouvidos na rua, enfim, o mundo multifacetado como ele é hoje.

“Propomos mapear nossa relação diária com as telas, sejam de celulares, laptops, tablets e outros dispositivos. E como o uso de aplicativos como Twitter, WhatsApp, Facebook, Instagram e milhares de APPs  vem mudando a forma das pessoas se comunicarem e por consequência a Comunicação”, diz Pollyana Ferrari.

A sociedade informacional, vislumbrada por Castells, tornou-se mais flexível, remixada e cheia de camadas do que pensávamos no final do século XX. “É uma mistura do tempo líquido proposto por Bauman com as experimentações técnicas de Manovich e sócio-antropológicas de Latour. Transitar torna-se, na nossa opinião, a melhor bússola desta primeira metade do século XXI”, explica Fabio Fernandes.

Tudo virou de cabeça pra baixo e a Comunicação é um agente fundamental para construção de memória e sentido nesse novo contexto social. “Como comunicadores, devemos nos concentrar em propor melhorias para promover o uso da não-linearidade, cuja cognição ocorrerá conforme a bagagem cultural e sígnica de cada leitor”, ensinam Pollyana e Fabio.