Se a vida te der um limão, faça um selfie

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Aconteceu há cerca de duas semanas, no dia 12 de março: a atriz Lucélia Santos, que ficou famosa no mundo inteiro por seu papel na novela Escrava Isaura (e cuja carreira, que de modo algum se resume só à novela ou mesmo à profissão de atriz – ela iniciou um curso de Filosofia recentemente no Canadá, tem quase quarenta anos), foi flagrada num ônibus carioca, como qualquer cidadão. Há provas: tiraram uma foto dela e puseram, sem sua autorização, no Facebook. Reproduzo:

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Ora, Lucélia tinha tudo para fazer como dezenas de outros atores que já foram fotografados recentemente por fãs usando câmeras de celulares e smartphones: reclamar da perda de privacidade – uma perda que nunca foi nova – não nos esqueçamos dos famosos e infames paparazzi, cuja diferença era o tamanho e potência das máquinas fotográficas e a insistência que virou folclórica, porque perseguiam o objeto de suas fotos a toda parte – ainda o fazem, aliás).

Para sermos justos, os atores sempre reclamaram dos paparazzi também, porque estes normalmente os fotografavam em situações cotidianas ou mesmo em momentos de maior intimidade, onde eles não queriam, e pediam para, não serem fotografados. O advento dos novos dispositivos técnicos, entretanto, gerou um aumento das reclamações em outra escala: os fãs não colocam as fotos nas revistas da moda, mas sim nas redes sociais, e supostamente estariam invadindo a privacidade dos atores ainda mais que os paparazzi. Será? Suposição discutível, e improvável – mas vamos deixá-la para outro momento.

O interessante aqui foi a atitude de Lucélia. Podia ter reclamado, mas não o fez. Ou não da maneira tradicional: no dia seguinte, comunicou à imprensa que estava revoltada sim, mas não com a questão da foto (que nem foi mencionada), mas com os comentários que questionavam por que a atriz estava se valendo do transporte público, quando podia usar um carro? (detalhe: Lucélia é defensora das alternativas sustentáveis há décadas) Reclamou que “O Brasil é o único país que conheço em que andar de ônibus é politicamente incorreto!!!!!!! Vai entender…” E usou o Instagram para mostrar outra foto, um “selfie” (tirado por outra pessoa, pela distância, mas a intenção é o que vale) para reiterar sua disposição e alegria por usar o transporte público.

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Essa história da Lucélia dá o que pensar – ou não? Deveria fazer com que pensassemos mais? Por que o medo dos paparazzi, ou dos paparazzi de ocasião em que todos nós vez por outra acabamos por nos tornar quando nos deparamos, nas ruas ou nos ônibus da vida, com aquilo/aquele a quem admiramos? Vilém Flusser alertava (com toda razão) para o fato de estarmos nos tornando funcionários dos dispositivos técnicos, ou seja, meros usuários sem a noção de como eles funcionam – pegando de onde Baudrillard havia parado ao falar da questão dos gadgets e do misterio de seu funcionamento. (eis o mistério da fé? Estaríamos confiando demais na máquina? Baudrillard teria dito que sim, mas isso em 1968, e estamos em outro momento histórico)

O que estamos vivendo hoje – o tempo das telas – não é mero jogo de palavras, aliteração feita para chamar a atenção dos incautos, mas um momento em que parte da humanidade depende da interface promovida pelas telas para funcionar e interagir. Saber como funciona o interior do computador não é tão importante – ou talvez seja, mas vamos perguntar por outro ângulo – a geração de nossos pais sabia como funcionava todos os equipamentos dos quais dependia sua sobrevivencia? Meu pai, seu pai, podiam saber consertar o carro, mas não sabiam necessariamente consertar a geladeira ou o fogão. Isso não impediu a humanidade de prosseguir (nem os fabricantes de venderem mais ou as assistências técnicas de sobreviverem, mas é o jogo do capitalismo e da obsolescência programada)

Por que então nos cobram que entendamos do funcionamento profundo do computador, do dispositivo movel, ou do aplicativo? Por que seriamos mais alienados que nossos pais? (Talvez sejamos, ou talvez não sejamos nem mais nem menos – talvez o dispositivo não faca diferença – isto ainda esta por ser visto.)

O tempo das telas é um tempo onde a imaginação humana criou extensões inesperadas – como de resto todas as invenções, da alavanca de Arquimedes (que gerou a catapulta usada nas guerras) ate MC2 de Einstein, que gerou a bomba atômica. Não poderia ser diferente com um dispositivo móvel. Para fecharmos com a metáfora do carro – o carro foi criado como extensão das pernas para percorrer grandes distâncias – e no entanto temos uma quantidade imensa de corridas de carros onde os pilotos dão voltas e mais voltas num circuito sem chegar a lugar algum e ninguém acha isso estranho. Sem contar com os rachas, as corridas não autorizadas que aparentemente matam ainda mais pessoas que a F1 ou a stock car.

Apenas considerações velozes e passageiras aqui, claro. (Fábio Fern andes)

Notas rápidas (porém importantes)

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Este post é só para avisar que saímos no site da Plurale, que ecoou nossa mensagem lindamente. Nosso muito obrigado à equipe e sucesso!

Em breve, aguardem uma entrevista com a Pollyana na Revista Imprensa e outra minha no Programa Perfil da Rádio UNESP FM. E vem mais coisa por aí.

E o lançamento é amanhã! Contamos com a presença de vocês!

No tempo dos “selfies”

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O selfie, tão logo surgiu, parece já ter se orkutizado. A expressão é deletéria (mais sobre isso no futuro), mas vocês entenderam. Na web, a popularidade se mede (não só, mas também) pela velocidade – de disseminação, de compartilhamento, de retweet. E de transformação em paródia: quando Obama e Ellen fazem selfies, o selfie como modismo pode estar próximo do fim. O que não quer dizer que o selfie enquanto foto, representação da imagem no tempo, já não existisse antes (qualquer auto-retrato por questão de princípios não deixa de ser um selfie) e continuará existindo depois do fim dos dispositivos técnicos (porque tudo chega ao fim um dia). Que outras formas ou metodologias isso assumirá, só podemos especular. (Fábio Fernandes).

“Her” e a hiperconectividade

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Nem só de vantagens é feito o tempo das telas. Ao menos é isso que o longa “Ela”, dirigido por Spike Jonze e vencedor do Oscar de melhor roteiro, mostra a interação homem-máquina em uma alegoria perturbadora. O protagonista Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, instável demais para conseguir lidar com relacionamentos, acaba por se render à máquina. Ele interage diariamente com o (SO) sistema operacional Samantha e acaba se apaixonando pelo programa.

Afinal, quais os limites de um relacionamento real, com sentimentos reais? A que ponto nos relacionamos com máquinas no dia a dia? Theodore é aquele em que tememos nos transformar, uma alegoria necessária ao pensar a geração que olhos grudados à tela do smartphone? O filme de Jonze mostra um Theodore meio Peter Pan, incapaz de lidar com as DRs (discutir a relação) da vida a dois, com a ex-mulher, e também com Samantha. Aliás, uma das partes mais divertidas do filme é  a DR com SO e a tentativa da Samantha em arrumar um “corpo”, ou melhor uma mulher para Theodore. (Priscila Bellini).

Pollyana Ferrari e Fábio Fernandes farão oficina sobre webjornalismo

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Via 36º Congresso Nacional de Jornalistas

Os jornalistas Fábio Fernandes e Pollyana Ferrari já confirmaram participação no 36º Congresso Nacional dos Jornalistas. Eles vão ministrar a oficina ‘Apuração e texto final em webjornalismo’, nos dias 3 e 4 de abril. Autores de várias obras, eles também vão lançar, em Maceió, o livro ‘No tempo das telas: reconfigurando a comunicação’, que escreveram juntos.

O livro, que ainda está no prelo, é um thriller científico com personagens ficcionais que vivenciam experiências reais do nosso dia a dia, onde as relações são mediadas pela conexão através de telas – de celulares, laptops, tablets e outros dispositivos – e por meio de inúmeros aplicativos como Twitter, Whatsapp, Facebook, e Instagram, que têm mudado a forma das pessoas se comunicarem.

Fábio Fernandes é formado em Jornalismo, escritor, tradutor, professor da pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD) na PUC-SP e Coordenador do curso de Mídias Digitais do Instituto Europeo di Design (IED), São Paulo.

Traduziu cerca de cem obras e é autor dos livros: Interface com o Vampiro (Writers, 2000), A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Morumbi, 2006), Wild Mood Swings (Mojo Books, 2008) e Os Dias da Peste (Tarja, 2009).

Pollyana Ferrari é também formada em Jornalismo, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, consultora web em arquitetura da informação e mídias sociais e atua há 25 anos no mercado editorial de TI. É professora da PUC-SP, PUC-RS, UCS, FAAP e Aberje, nos cursos de pós-graduação em Comunicação.

É autora dos livros “Jornalismo Digital”, ”Hipertexto, Hipermídia” e “A força da mídia social”, além de 11 participações em livros sobre Comunicação.

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