A FORÇA DO “TAGUEAMENTO” NA COMUNICAÇÃO

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No seu último ensaio para o jornal The New York Times, Eduardo Porter descreve as recentes pesquisas de Eric Horvitz, codiretor do laboratório de pesquisas da Microsoft em Redmond, nos Estados Unidos, sobre um sistema que, com base em postagens do Twitter, pode prever as chances de uma grávida sofrer depressão pós-parto, mensurando sinais como a frequência com que ela usa palavras como “eu” e “mim”. Do outro lado do oceano Atlântico, a hashtag#somostodosmacacos ganha destaque mundial após o craque Neymar postá-la no seu Twitter, depois que o colega Daniel Alves sofreu racismo em campo de futebol. A agência de Neymar, a Loducca, criou a hashtag a pedido do pai do atacante, mas não esperava tamanha repercussão nas redes e na mídia.

Os dois exemplos, distintos na temática, têm algo em comum: uso de hashtags.  A conclusão que podemos tirar disso é que a rede se comporta rizomaticamente, com ramificações diferentes, espalhando-se rapidamente e sem controle aparente. A hashtag #bananabatebola, por exemplo, viralizou rapidamente e, como sempre, gerou frases onde ídolos de multidões, como Bob Marley, voltam à tona, com vários RT, como no caso deste post, um dos milhares que rolaram nas últimas 48hs no Twitter.  “Já dizia Bob Marley: Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra. #bananabatebola”.

O que está em jogo aqui é a força do “tagueamento”, nova estratégia comunicacional que fortalece ainda mais o microblog Twitter e outras redes como o Instagram, que também utilizam #hashtags. São sinais que nos fazem perceber que a viralização, tão fundamental no ciberespaço, não está acontecendo no Facebook.

A maior rede social do planeta perdeu o estranhamento, não existe mais ficar à deriva, fundamental no ciberespaço, apenas olha-se no espelho da espetacularização, pelo menos por enquanto. E quando apenas nos olhamos no espelho, não dialogamos, mas falamos sozinhos.  Nas primeiras páginas do meu novo livro “No tempo das telas” digo que “como filha de Emma Bovary e Anna Karenina resmungo. Mas qual ser pensante não reclama nesse nosso tempo líquido? Falta o tempo da decantação, de esperar a areia descer para o fundo do balde, da maré baixar, do mar se acalmar”.

A política comercial do Facebook foi um tiro no próprio pé. Esqueceram que redes sociais são impulsionadas por pessoas, e não marcas. Primeiro foi a quebra de braço com as marcas forçando compra de mídia, depois chegou a vez de o usuário perceber que ninguém mais vê o que ele posta. O Facebook virou a #AOL, e parece que o processo de decadência segue a mesma receita de bolo. Nas postagens do Facebook tem prevalecido — em volume de posts e comentários –, o mundo do consumo, da beleza construída em consultórios médicos, das viagens a Miami para comprar quilos de roupas na Forever 21, marca que desembarcou no Brasil ancorada por forte campanha digital de blogueiras adolescentes que vivem e pensam apenas no “look do dia”, como se isso tivesse alguma importância para o planeta.

Depois de muito discutir a minha relação com o Facebook, resolvi deixá-lo, mas ainda não tenho nenhuma certeza se será para sempre. Aliás, nada é para sempre. Eternizamos momentos na rede. Uma banana contra o racismo gera mais entusiastas do que as pistas de uma grávida sobre possível depressão pós-parto, mas em ambos os casos, as migalhas que deixamos como pegadas nas redes estão tecendo uma nova sociedade, onde o uso de palavras-chave está mudando a forma de se fazer Comunicação. 

Originalmente este artigo foi publicado no portal Aberje onde tenho uma coluna. Para ler mais artigos, clique. (Pollyana Ferrari).

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